1.24.2013

Lua de mel, lua de fel

Acabamos de entrar no avião que nos trará de regresso a casa. Termina a nossa lua de mel. Dou graças! Sobre ela ainda falaremos dentro de dez anos, na esperança de desencorajar quem se proponha viajar para as Seychelles, o paraíso prometido em brochuras que mentem. Arrepio-me ao recordar o mercado local, o peixe espalhado pelo chão e os legumes tristes e franzinos, de cores desmaiadas. O cheiro nauseabundo. E a bagagem perdida durante oito dos nove dias de estadia. A minha vaidade ressentiu-se, empertigou-se e exige ser reconquistada.
Toda aperaltada, estou certa de que, na aeronave majestosa em que acabamos de entrar, estacionada na pista do aeroporto Charles de Gaulle, encontraremos o conforto próprio de tudo o que nos é familiar. "Olá, Europa! Como estás, Cidade Luz?!". Sorrio e penso: "agora vai tudo correr bem".
Libertos das roupas antiquadas, dos móveis que já viram melhores dias e dos odores infernais, já levantámos voo e só lamento que estejamos sentados em lugares tão distantes. Duas horas e meia de viagem até Lisboa, cedo estaremos de mãos dadas, novamente, a contemplar as luzes que caem sobre a capital.
Na verdade, lamento também que me tenha calhado em sorte este companheiro de jornada tão peculiar, mas disfarço o meu desagrado, porque aí, na fila de trás, onde agora te sentas, não quero que nada te perturbe.
O homem acaba de se erguer e dirige-se à hospedeira de bordo. Senti um odor aflitivo que me deixou aturdida. Álcool ingerido sem nenhuma parcimónia! Esbraceja veementemente e grita com a elegante empregada da Air France, vociferando palavras que não consigo compreender na totalidade.
Alívio, já conseguiram sentá-lo e, que agradável, vão servir o jantar!
Com gestos eficientes e um daqueles penteados que sempre fizeram parte do meu imaginário de beleza, a hospedeira dispõe as bandejas na frente de cada um dos passageiros. Provo um peixe a saber a palha, acompanhado de arroz, insonso e desfeito de tão cozido. Decepcionada, ingiro escassas garfadas. Enjoo com um bolo melado que esmaga a gula. Bebo água, mas o adocicado excessivo ficou-me.
Num inglês arrastado, o meu companheiro de viagem fala incessantemente, pergunta-me como me chamo, de onde sou, se tenho namorado. O cheiro fétido que exala faz baloiçar ainda mais, no estômago, a miscelânia que nos serviram. Novo acesso, esbracejos redobrados e aquele simulacro de jantar entornado sobre mim. A vaidade pede-me o divórcio.
Suspiro. Lua de fel.
 
(cartoon retirado daqui)

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