11.16.2012

"Dizia nunca esquecerei, e lembro-me"

"Onde estás, pai, que me deixaste só a gritar onde estás? Na angústia, preciso de te ouvir, preciso que me estendas a mão. E nunca mais nunca mais. Pai. Dorme, pequenino, que foste tanto. E espeta-se-me no peito nunca mais te poder ouvir ver tocar. Pai, onde estiveres, dorme agora. Menino. Eras um pouco muito de mim. Descansa, pai. Ficou o teu sorriso no que não esqueço, ficaste todo em mim. Pai. Nunca esquecerei".
 
José Luís Peixoto. "Morreste-me". Pareço voltar sempre a estas palavras. A estas, às outras, deste e dos outros livros do autor. Agora, também um bocadinho fotógrafo. Ele assim se diz. E a capa do livro que acaba de lançar, "Dentro do Segredo - Uma Viagem na Coreia do Norte", o comprova.
Não escrevo, desta vez, apenas para viver e pedir-lhes que vivam através das palavras de José Luís Peixoto. Daquelas que sempre nos oferece por via do que (nos) escreve.
Não. Dir-se-ia que, desta feita, "o caso é mais sério". As palavras vieram, mas não só impressas no papel. Chegaram em ondas sonoras, em vibrações que se tornaram audíveis e ecoam, ainda, em torrente, na cabeça, na memória.
Há momentos na vida de cada um de nós que jamais esqueceremos.
E aquele em que conheci o José Luís será, não tenho quaisquer dúvidas, um desses momentos.
O dia de ontem. O dia do lançamento de "Dentro do Segredo". 15 de Novembro de 2012.
Sei que, por muito que procure expressar as emoções que ali se desprenderam das palavras, apenas quem teve o privilégio de ontem ter estado no número 33 da Travessa da Queimada pode, verdadeiramente, entendê-las. Aquele entendimento que advém do que sentimos quando a voz e o olhar - penetrante, mas sem nunca intimidar - de alguém que admiramos profundamente nos atravessa a superfície e se entranha, devagar mas consistentemente, em nós.
José Luís Peixoto é um homem simples, caloroso e acessível, generoso nas palavras e nos gestos.  Dotado de um olhar profundo como nunca vira e de um sorriso cristalino, tão franco e aberto. Um homem que ama as palavras e encontra felicidade em que outros vivam através das suas, revendo-se nelas. Um homem que, como eu, valoriza o "mesmo" e a verdade. Características que não mascaram - apenas sublinham - a genialidade que, nem mesmo quem nunca haja estado na sua presença, poderá desmentir.
Impunha-se, evidentemente, adquirir o novo livro do José Luís, pedir-lhe que, com generosidade, o assinasse. E assim se cumpriu. Tenho uma imensa curiosidade relativamente a este novo registo do escritor, o registo da saída da sua "zona de conforto", conforme explicou. E a expectativa de aprender muito, também, através da sua sensibilidade muito própria, acerca de uma realidade que me é distante.
"Dentro do Segredo", este livro pelo qual, como me disse, o José Luís se apaixonou, embora de uma forma muito distinta, e por razões também elas diferentes, do que sucedeu com "Morreste-me".
A referência expressa a esta obra, que me fez na conversa que mantivemos, partiu de uma manifesta fraqueza minha. Na verdade, não resisti, nem tentei, sequer, resistir, a levar comigo o meu exemplar, aquele que tantas vezes anda comigo, que li e reli, pousado no meu colo, nas horas de almoço. Não pude evitar dizer-lhe que li "Morreste-me", pela primeira vez, pela mão de uma amiga, que me apaixonei perdidamente por ele,  que o ofereci antes mesmo de o comprar para mim. Que o mesmo me diz tanto tanto sobre o amor e a vida.
A dedicatória do José Luís, que agora e para sempre, acompanha o hino que é este (meu) livro, apenas revela, de forma inequívoca, a grandiosidade do homem, do poeta e escritor que Galveias viu nascer. Ao (re)lê-la, não consigo abandonar a ideia de que a magnificência da alma e do saber não estará nunca naqueles que, ainda que apenas debitando citações, se vão dizendo obras da erudição (alguns, pasme-se, desde o berço!), mas em pessoas com a superioridade humana e intelectual deste homem.
Não tendo faltado a fotografia carinhosamente tirada pela C. -  tratava-se de um momento histórico no contexto da minha vida, pelo que lá pedi desculpa ao José Luís por esta minha "criancice"! -, resta-me dizer-lhe um "muito obrigada" e um "até sempre"! Mesmo.
 
 

 

11.06.2012

Da aproximação do Natal, dos falsos moralismos e da minha falta de paciência

Dou comigo irritada.
Com a situação do país. Com as imposições de quem tudo pode. Com as falências e as portas a fecharem-se. Com as fileiras de desempregados e a fome que já se lê nos olhos de muitos. Com os manifestantes que transformam os protestos em espectáculos de circo. Com o saldo da conta bancária cada vez mais pequenino e as despesas em constante crescendo. Com o medo de não conseguir cumprir as minhas obrigações.
Mais do que irritação, o que sinto é uma enorme apreensão. Também em crescendo. Todos os dias.
A irritação, essa, é mesmo com as pessoas. Em momentos tão difíceis, deveríamos ser especialmente solidários uns com os outros. Mas não. Nem na miséria o somos. Nada a fazer.
Isto vem a propósito da aproximação da quadra natalícia e dos comentários que começam já a proliferar nas redes sociais, que mais não são, afinal, do que a reprodução, porventura acrítica, de um certo tipo de discurso que, por esta altura, todos os anos, impera. E nem está, necessariamente, relacionado com a crise. É apenas mais do mesmo.
É verdade. Lá teremos de suportar ouvir o célebre "Natal é paz e amor, não o consumismo desenfreado", é "tempo da família e de união". E por aí fora. É a converseta mais do que gasta.
Não que o Natal não seja, para mim e para a minha família, pontuado por todas aquelas coisas. Esforçamo-nos para que assim seja. A pergunta que sempre me ocupa a mente, porém, é: não deveriam todos os dias ser de afectos, de solidariedade entre os Homens, de união das famílias?
Como é aborrecido e insensato o discurso do "os portugueses só pensam em consumir", "gastam o que não podem, tal como quando vão de férias" (este aditamento é delicioso!), sendo que, quem o utiliza, se coloca, evidente e invariavelmente, fora desse grupo maldito formado... pelos "portugueses", ora bem..! Quem utiliza esse discurso são pessoas auto intituladas de "cidadãos com princípios e valores", "bons educadores", "bons gestores domésticos"... por contraponto aos tais dos "desgovernados", os "portugueses" que só pensam em fazer do Natal uma quadra dedicada ao consumo. Pessoas sem princípios nem valores, portanto.
Para além da manifesta falta de inteligência que as generalizações sempre revelam, pergunto-me, em primeiro lugar, o que terão estas pessoas que ver com o dinheiro que os outros gastam, no Natal, nas férias, ou noutra ocasião qualquer? A menos que estes o façam a expensas dos "cidadãos com moral", referidos, parece-me que... nada!
Por outro lado, questiono-me se o número de presentes recebidos "per capita", ou o número de decorações natalícias adquiridas será inversamente proporcional ao acervo de princípios e valores de quem os recebe/adquire. Estou certa de que não!
Particularmente, não posso dar-me ao luxo de consumir muito. Nem neste Natal, nem nos que virão, adivinho. Também não pude ir de férias.
Se seria extraordinariamente mais feliz se pudesse comprar mais sapatos, malas, livros, discos, ou brinquedos e vestuário para os filhos? Talvez não fosse. Seria pior pessoa se pudesse fazê-lo? Não me parece.
Se acho que cada um faz ao seu dinheiro o que bem entende? Acho.
Se acho que quem pode fazê-lo, deve gastar o que ganha com o esforço do seu trabalho, também, em coisas que lhe dão prazer? Acho.
Se acho que as pessoas que ainda podem mimar-se, e aos seus, com alguns bens materiais, são pessoas sem valores e sem princípios, maus educadores e/ou maus gestores domésticos? De todo!
A vida não devia ser apenas cumprimento de deveres e de obrigações contraídas. E é-o cada vez mais, porque estamos depauperados, e, à generalidade de nós, já pouco ou nada sobra para uma ou outra distração.
Uma coisa tenho como segura: os falsos moralistas que utilizam o referido discurso não são, não podem ser, as "pessoas com valores e princípios" que se dizem. Pessoas com valores e princípios não estão sempre prontas para julgar, gratuitamente, o próximo.

(foto via Moi Decor)

10.29.2012

O "Livro" que tem de ser lido

" (...) Chegaram ao ponto onde o muro da casa da Dona Milú se arredondava numa esquina que dava para a descida da fonte, continuaram. A mãe pousou a mala e baixou-se até ficar diante do Ilídio. Era elegante o seu corpo dobrado dentro das roupas. A mãe tinha as sobrabcelhas finas. Acertou o colarinho da camisa do filho. Como se as mãos fossem escovas, passou-as pelo casaco do filho, a limpá-lo de nada. Tirou-lhe a pequena mala e pousou-a num banco de pedra que existia ao lado da fonte. Tirou-lhe o livro que trazia debaixo do braço e pousou-o sobre a mala. Segurando-lhe os ombros, mais uma vez, olhou-o em silêncio. O silêncio passou. A mãe tinha uma voz:
Fica aqui, não saias daqui.
O Ilídio era capaz de entender e obedecer às ordens simples da mãe.
Espera aqui.
Não respondeu. Queria ver o que ia acontecer. Durante a última semana, a mãe séria, sem palavras, o Ilídio não compreendia. Ao seu lado, a água da fonte.
Os olhos da mãe ficaram parados nos do filho até ao instante em que o seu corpo se virou e se afastou, regressando por onde tinha acabado de chegar. O Ilídio estava a pensar em qualquer coisa, talvez nos pássaros que vinham enfiar-se nas folhas de hera que cobriam o topo do muro da Dona Milú, à sua frente, pássaros da primavera. Asas ou folhas. E não se esforçou por ouvir os passos da mãe a afastarem-se até serem apenas um resto de som. Só o instinto. Quando lhe pareceu que já tinha passado muito tempo, sem mexer os pés, com as mãos atrás das costas, inclinou o tronco para a frente para ver a mãe lá ao fundo, lá ao fundo, a afastar-se, era a sua mãe e, depois, ui, a desaparecer, a dobrar a esquina. O Ilídio voltou com o corpo à sua posição. Longe, no adro, os sinos da igreja deram as sete da tarde. Essa hora espalhou-se por toda a vila. Com seis anos, o Ilídio sabia bem que, no adro, o toque dos sinos interrompia as conversas e os pensamentos. (...) Quando inspirava, o Ilídio sentia uma espécie de felicidade. Sentia que alguma coisa ia mudar. Entretanto, ali, o canto distante das cigarras, as palmas das mãos pousadas sobre a cal ainda morna do sol da tarde, a água água água.
O Ilídio tinha fome. Passou um grupo de mulheres com cabazes de roupa suja. Olharam para ele e não disseram nada. Pouco depois, ouvia-se a água a ser atirada ao ar, o eco estridente das suas gargalhadas. Aquilo que diziam era como uivos, queixas ou súplicas e, depois, gargalhadas. Eram barulhentas. A água levava murros. Passou também um homem, trôpego, curvo, de pernas arcadas. Tinha o cabelo velho, puxava uma burra de olhos cansados. Eram dois grandes olhos castanhos. Esse cansaço continha tristeza. O cansaço do Ilídio era diferente. A tarde escurecia e, a essa velocidade, o Ilídio impacientava-se e zangava-se. O homem não se demorou. Já depois de a burra ter bebido, quando ainda estavam a preparar-se para subir, depois de passar um lenço enrodilhado pela cara, perguntou:
De quem é que tu és filho?
O Ilídio disse o nome da mãe.
De quem?
Repetiu o nome da mãe. O homem ficou parado, a fazer contas de cabeça, a tentar perceber e, depois, de repente, compreendeu. Como se Ilídio tivesse deixado de existir, subiu o caminho de terra, seguido pela burra, conformada.
No silêncio do espaço à sua volta, o Ilídio esperava ainda. A tarde desaparecia, as formas já não tinham sombra e, aos poucos, mudavam de cor, transformavam-se elas próprias em sombra. O Ilídio tinha fome e, por isso, pensou em beber água, desconhecia a história da fonte. Mas, por um instante, acreditou que quando a mãe voltasse, havia de perceber que ele tinha saído do lugar e havia de zangar-se. Ele não a temia mas, ali, apeteceu-lhe evitar essa cena, até porque as mulheres já haviam terminado de lavar a roupa, já a tinham torcido, e subiam caladas, carregadas, o cheiro do sabão azul, as chinelas a escorregarem na terra seca.
E não era quase de noite, era mesmo de noite. Existia ainda a memória da tarde, mas já era de noite. O sino não tinha deixado de dar todas as horas. O Ilídio enrolava perguntas para dentro de si. Bebeu água. Com o pescoço apertado, sentia água a escorrer-lhe pelos lados da boca e pelo queixo. Era fresca e enchia-o. Onde estaria a sua mãe? Porque não o vinha buscar? O Ilídio irritava-se com estas perguntas. A mãe costumava ralhar-lhe por muito menos. Quando chegasse, iria castigá-la. (...) Depois desta lembrança, pensava que, se a mãe chegasse, talvez não dissesse nada. Ia só correr para ela e abraçá-la. (...)".
 
Esta é uma das passagens mais perturbadoras do "Livro", de José Luís Peixoto. Continua até que compreendamos que a mãe de Ilídio não voltou e que este menino, com apenas seis anos de idade, foi resgatado do local onde foi deixado por Josué, o homem que ficara encarregue de lhe dar um tecto para, a partir desse dia, sobreviver orfão.
O "Livro", como toda a obra de José Luís Peixoto, contém as palavras que se entranham, devagar, em nós, na nossa essência, e que desejamos que ali fiquem para sempre, como que gravadas a ferro quente.
Não é um livro de fácil leitura, na medida em que revolve, de modo violento, as nossas emoções. Em certo dia, li cerca de um terço do mesmo. Parei. Não me sentia preparada para tal. Porque é preciso estarmos realmente preparados, em termos emocionais, para ler esta obra maravilhosa. Agora sim. Sinto que posso lê-lo. E vale mesmo a pena. Consumir, uma a uma, as palavras que nos oferece.
 
 

10.16.2012

O fio invisível

Não tinha em mente a publicação do presente texto, todavia, no Domingo que passou tive o privilégio de estar presente, juntamente com a minha família, no baptismo do filho de um casal muito nosso amigo. Ambos os membros do casal são, igualmente, padrinhos de baptismo do meu filho e, portanto, o dia só podia assumir, como assumiu, um enorme significado para nós.
Por corresponder ao XXVIII Domingo do Tempo Comum, uma das leituras efectuadas foi a do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos (Marcos 10, 17-30), que reza assim:
"Naquele tempo,
ia Jesus pôr-Se a caminho,
quando um homem se aproximou correndo,
ajoelhou diante d'Ele e Lhe perguntou:
« - Bom Mestre, que hei-de fazer para alcançar a vida eterna?»
Jesus respondeu:
« - Porque me chamas bom? Ninguém é bom senão Deus.
Tu sabes os mandamentos:
'Não mates; não cometas adultério;
não roubes; não levantes falso testemunho;
não cometas fraude; honra pai e mãe'.
O homem disse a Jesus:
« - Mestre, tudo isso eu tenho cumprido desde a juventude».
Jesus olhou para ele com simpatia e respondeu:
« - Falta-te uma coisa: vai vender o que tens,
dá o dinheiro aos pobres, e terás um tesouro no Céu.
Depois, vem e segue-me».
Ouvindo estas palavras, anuviou-se-lhe o semblante
e retirou-se pesaroso,
porque era muito rico (...)."
Confesso que, ao ouvir as palavras do Senhor Padre, num primeiro momento e, seguramente, em função do meu fraco cultivo da leitura das Sagradas Escrituras, fui invadida pelo pensamento de que, face à actual conjuntura económico-financeira e às repercussões que a mesma, generosamente auxiliada pelas sucessivas medidas adoptadas pelo executivo, tem na situação das famílias portuguesas, este "discurso" se revelava, até, um bocadinho aviltante. Não que seja, por princípio, contra o auxílio dos materialmente  mais desfavorecidos, pelo contrário. Ninguém pode, porém, ignorar que a, até aqui, "classe média" portuguesa tem sofrido e (pelos vistos!) continuará a sofrer graves e duríssimos golpes, e está, efectivamente, empobrecida. Desesperantemente empobrecida. Senti-me, portanto, incomodada.
E com este  ingrato sentimento teria abandonado a Igreja onde decorria a celebração, não fora a esclarecida e muito tempestiva explicação do Senhor Padre, que se dirigiu aos fiéis asseverando-lhes que, nesta passagem do Evangelho, se não quis veicular que seguir Jesus é uma opção de miséria, mas, sim, sublinhar a importância de cada um se despojar da sua segurança pessoal (fornecida, em grande medida, pela "riqueza") e de aprender outra forma de ver a vida, os bens materiais, Deus, o outro e a própria religião.
Já faziam, pois, mais algum sentido aquelas palavras. Mas o Senhor Padre continuou o seu sermão e, de forma brilhante, fez a sua transposição para a prática, mais uma vez alertando os fiéis de que, para alcançar a "vida eterna" (que o Prior transpôs para o conceito de "Felicidade"), não basta cumprir, ainda que escrupulosamente, os Mandamentos. Porque essa é a bondade meramente formal - e quantos Homens não conhecemos que os cumprem, mecanicamente, sem que nada de realmente verdadeiro perspasse os seus corações? Sem que sejam o que, no conceito de qualquer homem comum, mediano, possa corresponder a uma boa pessoa?
A bondade que conduz à felicidade é aquela que radica na partilha. No respeito por si mas, também, pelo outro. No não se colocar a si e aos seus interesses, sistematicamente, em primeiro lugar. No importar-se, realmente, com o outro, com os seus sentimentos e as suas necessidades.
E, transpondo o texto das Escrituras para a linguagem do amor ao próximo e do respeito, nós entendemo-nos.
Devo dizer que senti a grata satisfação de, a determinada altura, estarmos ambos a sorrir e de ter o meu olhar preso ao do Senhor Padre. Preso por um fio invisível. O da verdade e do respeito e compreensão mútuos.


 

10.04.2012

Os professores das nossas vidas

"O mundo não nasceu connosco. Essa ligeira ilusão é mais um sinal da imperfeição que nos cobre os sentidos. Chegámos num dia que não recordamos, mas que celebramos anualmente; depois, pouco a pouco, a neblina foi-se desfazendo nos objectos até que, por fim, conseguimos reconhecer-nos ao espelho. Nessa idade, não sabíamos o suficiente para percebermos que não sabíamos nada. Foi então que chegaram os professores. Traziam todo o conhecimento do mundo que nos antecedeu. Lançaram-se na tarefa de nos actualizar com o presente da nossa espécie e da nossa civilização. Essa tarefa, sabemo-lo hoje, é infinita".
Num texto que escreveu para a revista Visão de 13 de Outubro do ano transacto, de que a citação que antecede foi retirada (e cujo texto integral pode ler-se aqui), o escritor José Luís Peixoto expressa a sua opinião sobre os professores, o seu papel na vida de cada um de nós e da comunidade em geral. Marca o trabalho dos professores com o selo da generosidade. E faz-nos apelo ao esforço mínimo da memória e ao sentimento, pequenino, de gratidão, para que nos apercebamos do quanto devemos aos professores. Coloca nas mãos dos professores a bandeira de guardiões da esperança, pela sua prática diária, pela sua resistência. E intima-nos a sentirmos vergonha de verbalizar termos perdido a esperança e de termos desistido de lutar pelo ultrapassar das nossas dificuldades. De termos desistido de viver. "Sabemos que estamos aqui, o sangue atravessa-nos o corpo", escreve.
Sempre tive um respeito imenso pelos professores. Pela sua dedicação ao outro, pela sua persistência e, sim, pela sua resistência. Ensinar é, sem dúvida, tarefa árdua mas será também, estou segura, uma das mais compensadoras que existem. Como salvar vidas. Como devolver a paz e a segurança aos cidadãos através de uma correcta administração da justiça. Todas elas tarefas nobres. E compensadoras, na sua essência, mau grado o quão mal o poder político vem tratando os profissionais que lhes dão o seu corpo e sua alma. E, tantas e tantas vezes, as suas lágrimas, a sua saúde e todo o seu tempo útil.
Nunca esquecerei alguns dos professores que fizeram parte do meu percurso enquanto estudante. Alguns, por (tão) boas razões, outros, por razões assaz absurdas. Estes, porém, pertencem àquela franja marginal dos "professores por obrigação" - não gostaria de afirmá-los "professores por falta de alternativa" -, por contraposição aos professores por vocação, e é, evidentemente, a estes, e apenas a estes, que me refiro neste texto.
Os outros, na verdade, são professores como podiam ser bibliotecários, padeiros, bancários ou agentes imobiliários. Ou outra coisa qualquer, desde que a sua craveira intelectual lho permitisse, obviamente.
Aos dezasseis, e durante dois anos lectivos completos, tive o privilégio de ter sido aluna do professor J.F., que, então, leccionava Língua Portuguesa na escola que eu frequentava. Recordo, com algum assombro, o sentimento que, durante todo um - o primeiro - mês, ele despertava em mim.
Intimidação. Eu sentia-me realmente intimidada pela simples presença dele. Não que o mesmo manifestasse qualquer agressividade, sequer no tom da sua oratória. Era um sentimento que despoletava alguma agonia, mesmo física, em mim, mas que, de forma objectiva e racional, eu não conseguia explicar.
Umas semanas mais tarde, compreendi finalmente. O professor J.F. era um homem de alma grande, enorme. Era um gigante. E os gigantes intimidam-nos sempre pelo seu tamanho, mas não, necessariamente, pela sua personalidade e forma de estar na vida e no mundo. Essa, a deste professor, enlevava-me, fazia-me querer ser sempre melhor, dar mais de mim, mostrar-lhe, de modo grato, que o trabalho dele não era em vão. Que a generosidade do que ele me dava tinha retorno, expresso na minha gratidão e no meu empenho.
Esse, foi o tempo da descoberta do "Clube dos Poetas Mortos", um dos filmes que ficará sempre na minha memória e no meu coração. Da descoberta d' "Os Maias" (não de Eça de Queiroz, que já, então, me acompanhava na vida há dois ou três anos), das "Folhas Caídas", do sonho de um dia publicar, como o professor. Tempos que, nessa medida, recordo com muita saudade.
"Carpe diem. Seize the day, boys! Make your lives extraordinary!"
 
 
 

9.28.2012

Mal nos conhecemos / Inaugurámos a palavra «amigo»!

"Mal nos conhecemos / Inaugurámos a palavra «amigo»!".
Assim se inicia um dos mais citados poemas de Alexandre O'Neill.  Tantas vezes citado, pergunto-me, porém, se, com o passar do tempo, isso o não terá esvaziado de conteúdo. Se o poema será entendido - melhor dizendo, sentido - no seu significado intrínseco, a cada vez que alguém o transcreve para um qualquer suporte.
Não que eu seja céptica relativamente à amizade - não escreverei "à verdadeira amizade", justamente porque o contrário envolve uma contradição nos próprios termos.
Na realidade, no que toca à amizade, sou uma crente, uma "beata fervorosa", acredito no poder da mesma e na influência que pode ter na vida de quem por ela se deixa tocar. Mas, sobre essa influência, discorrerei noutro espaço.
Cícero escreveu que, "dos amores humanos, o menos egoísta, o mais puro e desinteressado é o amor da amizade". Assentindo, acrescentarei que, sem o amor da amizade, o amor romântico é pobre e votado à insubsistência.
Ao longo da minha jornada existencial, muitas vezes me tenho questionado sobre o significado da amizade e sobre o papel que tenho na vida daqueles a quem chamo de "amigos", e vice-versa.
Há alguns dias, o M. dizia-me  "uma pessoa incapaz de fundar qualquer relação inócua". A mais pura das verdades. Relações que nada acrescentam são, para mim, meras interacções, normalmente impostas por circunstâncias pessoais ou profissionais. Não constituem, pois, qualquer alimento para a alma.
Nunca fiz amizades com facilidade. Talvez por ser uma pessoa tímida e reservada. Mantive sempre um núcleo contido de amigos, o qual, no correr da vida e com naturalidade, nalguma parte, se alterou. Tenho amizades que têm quase a minha idade, outras que nasceram recentemente e que ainda dão, embora de forma assertiva, os seus "primeiros passos". Todas muito boas.
Penso poder dizer que me entrego, de coração inteiro, aos meus amigos. Sou uma adepta do incondicional, portanto.
Sucede que, quando nos entregamos, com esta intensidade, àqueles de quem gostamos, é seguro que, mais cedo ou mais tarde, sofreremos graves desilusões. Julgo, até, que aqueles que não se entregam - que nunca se entregam para além do que pode considerar-se a fronteira da sua zona de conforto -, fazem-no conscientemente, como forma de auto-preservação.
Porque dói. Dói intensamente sentir que demos de nós mesmos, que teríamos dado mais se as circunstâncias o tivessem exigido ou proporcionado, e que isso não foi devidamente valorizado, que, pura e simplesmente, foi deitado fora, como se de algo de trivial se tratasse.
Creio que faz parte dos processos internos do ser humano, perante a desilusão, a incompreensão e o sentimento de injustiça que aquela provoca, passar por uma fase de rebelião, na qual nos insurgimos contra nós mesmos, contra a nossa forma de ser e de estar na vida e na relação com o outro.
Humana que sou, já vivi, e de forma vincada, fases de rebelião, nas quais expressei intensa raiva por me entregar demasiado, por pensar nos outros em detrimento de mim mesma, por estar sempre "lá" e por, quando precisei, o inverso não haver - pasme-se! - sucedido.
Percebi, nesses momentos, que não é o facto de não me dar aos outros na perspectiva de deles receber, que evita o sofrimento de realizar que, afinal, a importância que tínhamos, uns para os outros, não merecia equiparação.
E compreendi, também, que, como, recorrentemente, afirma um grande e sábio amigo meu, existem "erros de casting" que não conseguimos evitar, ainda que tenhamos a "mania" de que lemos as pessoas com particular fidedignidade. E que, por vezes, o que temos de melhor para oferecer não corresponde ao que o outro reclama para a sua vida e para a sua felicidade. Ou, pelo menos, àquilo que a sua generosidade e/ou inteligência emocional suporta.
Em profunda fase de rebelião, recebi, há dias, uma mensagem, na qual, entre o mais, podia ler-se, "- Tu és uma pessoa muito especial!". Em abono da verdade, terei de dizer que, momentaneamente, tive a sensação de ter levado um enorme murro no estômago. Não foi a primeira vez que a frase, com essa mesma literalidade, me fora dirigida e isso gerou-me um enorme desconforto, essencialmente por me fazer recordar que, algumas vezes, a mensagem não terá passado de um conjunto ordenado de palavras desprovidas de significação especial para o seu autor.
Depois... Bem, depois esbocei um sorriso, e fi-lo com gratidão, por saber que, pelo menos desta vez, estas palavras vieram do coração de quem as proferiu (muito especial, devo dizer!). E, fazendo o balanço, compreendi que a entrega àqueles que amo continua a ser o caminho. O meu, pelo menos.


9.20.2012

A Estante das Grandes Oportunidades Perdidas

Protagonizava, num destes dias, um breve mas sempre épico episódio de autocomiseração, procurando fazer uma antevisão - fantasiosa, ou não, desconheço!, mas acredito piamente que o seja - do que sucederia se, um dia, com a grata generosidade que me caracteriza, oferecesse o meu livro (porque, nalgum lugar, no tempo e na vida, eu vou escrevê-lo!) a uma determinada pessoa, cuja identidade, naturalmente, irreleva por completo.
Estando empenhada neste meu infrutuoso exercício do "que triste sou por não poder contar-me entre os protagonistas da sua vida", recebo uma sempre bem-vinda bofetada moral da minha ilustre interlocutora, a C..
A C. é uma mulher extremamente inteligente, espirituosa e determinada, pouco dada a visões românticas de filmes de quarta categoria, como ela diz. Teima em "chamar-me à Terra" quando eu entro em espirais de autocrítica imerecida e de sofrimento associado a acontecimentos relativamente aos quais eu não tenho o chamado "domínio do facto".
Afirmava eu que, naquele cenário, o livro seria, apenas, deitado fora. O livro, como o resto, aliás, nada de novo.
A minha interlocutora disse, ipsis verbis: "- Pois eu acho que [...] o arrumava na estante das grandes oportunidades perdidas (se ainda tiver espaço)".
E assim ficámos. Nada mais sobre isso se disse. Nada mais havia, afinal, a dizer.
Se assim é, ou não, desconheço. Nunca saberei. E até pode ser que o livro nunca "saia". Ou que amanhã não estejamos cá para o ler, para o deitar fora, ou para o arrumar em qualquer estante, até na das grandes oportunidades perdidas.
A profundidade das palavras da C. (não sabe dizê-las de outra forma, aquela rapariga!) deixou-me, porém, a pensar.
Não que encarnei ou encarno qualquer oportunidade perdida para quem quer que seja. De todo.
Mas, sim, em que todos nós teremos a nossa estante das oportunidades perdidas. Grandes, médias ou pequenas. Oportunidades de mudança, de crescimento. De preenchimento interior.
Eu tenho a minha, certamente já com algum recheio. Vocês terão a vossa.
Porventura, nunca chegamos a apercebermo-nos, verdadeiramente, do quão preenchida ela vai ficando com o passar dos dias. Ou talvez apenas tomemos consciência disso no momento em que lá tentamos arquivar mais uma oportunidade perdida e verificamos que, ali, já não existe mais espaço.
Nesse dia, porventura, colapsamos por dentro. Ainda que continuemos a fingir muito.
Decidi, entretanto, que não quero perscrutar, nessa minha estante, o que lá jaz. Talvez valesse a pena procurar intuir se existe alguma coisa que ainda de lá pode ser retirada com vida.
Decidi, especialmente, que não quero e que não vou alimentar esta estante cemitério.
Noutra conversa e noutro contexto, dizia-me, ainda, a C., reconduzindo-me, porém, ao mesmo lugar: "- Gosto muito desta ideia: vamos na vida e há um corredor cheio de portas. Se não as abrires, não vais saber o que lá está. Se abrires... haverá dificuldades, mas também coisas boas".
Um brinde, pois, ao abrir de portas.