10.29.2012

O "Livro" que tem de ser lido

" (...) Chegaram ao ponto onde o muro da casa da Dona Milú se arredondava numa esquina que dava para a descida da fonte, continuaram. A mãe pousou a mala e baixou-se até ficar diante do Ilídio. Era elegante o seu corpo dobrado dentro das roupas. A mãe tinha as sobrabcelhas finas. Acertou o colarinho da camisa do filho. Como se as mãos fossem escovas, passou-as pelo casaco do filho, a limpá-lo de nada. Tirou-lhe a pequena mala e pousou-a num banco de pedra que existia ao lado da fonte. Tirou-lhe o livro que trazia debaixo do braço e pousou-o sobre a mala. Segurando-lhe os ombros, mais uma vez, olhou-o em silêncio. O silêncio passou. A mãe tinha uma voz:
Fica aqui, não saias daqui.
O Ilídio era capaz de entender e obedecer às ordens simples da mãe.
Espera aqui.
Não respondeu. Queria ver o que ia acontecer. Durante a última semana, a mãe séria, sem palavras, o Ilídio não compreendia. Ao seu lado, a água da fonte.
Os olhos da mãe ficaram parados nos do filho até ao instante em que o seu corpo se virou e se afastou, regressando por onde tinha acabado de chegar. O Ilídio estava a pensar em qualquer coisa, talvez nos pássaros que vinham enfiar-se nas folhas de hera que cobriam o topo do muro da Dona Milú, à sua frente, pássaros da primavera. Asas ou folhas. E não se esforçou por ouvir os passos da mãe a afastarem-se até serem apenas um resto de som. Só o instinto. Quando lhe pareceu que já tinha passado muito tempo, sem mexer os pés, com as mãos atrás das costas, inclinou o tronco para a frente para ver a mãe lá ao fundo, lá ao fundo, a afastar-se, era a sua mãe e, depois, ui, a desaparecer, a dobrar a esquina. O Ilídio voltou com o corpo à sua posição. Longe, no adro, os sinos da igreja deram as sete da tarde. Essa hora espalhou-se por toda a vila. Com seis anos, o Ilídio sabia bem que, no adro, o toque dos sinos interrompia as conversas e os pensamentos. (...) Quando inspirava, o Ilídio sentia uma espécie de felicidade. Sentia que alguma coisa ia mudar. Entretanto, ali, o canto distante das cigarras, as palmas das mãos pousadas sobre a cal ainda morna do sol da tarde, a água água água.
O Ilídio tinha fome. Passou um grupo de mulheres com cabazes de roupa suja. Olharam para ele e não disseram nada. Pouco depois, ouvia-se a água a ser atirada ao ar, o eco estridente das suas gargalhadas. Aquilo que diziam era como uivos, queixas ou súplicas e, depois, gargalhadas. Eram barulhentas. A água levava murros. Passou também um homem, trôpego, curvo, de pernas arcadas. Tinha o cabelo velho, puxava uma burra de olhos cansados. Eram dois grandes olhos castanhos. Esse cansaço continha tristeza. O cansaço do Ilídio era diferente. A tarde escurecia e, a essa velocidade, o Ilídio impacientava-se e zangava-se. O homem não se demorou. Já depois de a burra ter bebido, quando ainda estavam a preparar-se para subir, depois de passar um lenço enrodilhado pela cara, perguntou:
De quem é que tu és filho?
O Ilídio disse o nome da mãe.
De quem?
Repetiu o nome da mãe. O homem ficou parado, a fazer contas de cabeça, a tentar perceber e, depois, de repente, compreendeu. Como se Ilídio tivesse deixado de existir, subiu o caminho de terra, seguido pela burra, conformada.
No silêncio do espaço à sua volta, o Ilídio esperava ainda. A tarde desaparecia, as formas já não tinham sombra e, aos poucos, mudavam de cor, transformavam-se elas próprias em sombra. O Ilídio tinha fome e, por isso, pensou em beber água, desconhecia a história da fonte. Mas, por um instante, acreditou que quando a mãe voltasse, havia de perceber que ele tinha saído do lugar e havia de zangar-se. Ele não a temia mas, ali, apeteceu-lhe evitar essa cena, até porque as mulheres já haviam terminado de lavar a roupa, já a tinham torcido, e subiam caladas, carregadas, o cheiro do sabão azul, as chinelas a escorregarem na terra seca.
E não era quase de noite, era mesmo de noite. Existia ainda a memória da tarde, mas já era de noite. O sino não tinha deixado de dar todas as horas. O Ilídio enrolava perguntas para dentro de si. Bebeu água. Com o pescoço apertado, sentia água a escorrer-lhe pelos lados da boca e pelo queixo. Era fresca e enchia-o. Onde estaria a sua mãe? Porque não o vinha buscar? O Ilídio irritava-se com estas perguntas. A mãe costumava ralhar-lhe por muito menos. Quando chegasse, iria castigá-la. (...) Depois desta lembrança, pensava que, se a mãe chegasse, talvez não dissesse nada. Ia só correr para ela e abraçá-la. (...)".
 
Esta é uma das passagens mais perturbadoras do "Livro", de José Luís Peixoto. Continua até que compreendamos que a mãe de Ilídio não voltou e que este menino, com apenas seis anos de idade, foi resgatado do local onde foi deixado por Josué, o homem que ficara encarregue de lhe dar um tecto para, a partir desse dia, sobreviver orfão.
O "Livro", como toda a obra de José Luís Peixoto, contém as palavras que se entranham, devagar, em nós, na nossa essência, e que desejamos que ali fiquem para sempre, como que gravadas a ferro quente.
Não é um livro de fácil leitura, na medida em que revolve, de modo violento, as nossas emoções. Em certo dia, li cerca de um terço do mesmo. Parei. Não me sentia preparada para tal. Porque é preciso estarmos realmente preparados, em termos emocionais, para ler esta obra maravilhosa. Agora sim. Sinto que posso lê-lo. E vale mesmo a pena. Consumir, uma a uma, as palavras que nos oferece.
 
 

10.16.2012

O fio invisível

Não tinha em mente a publicação do presente texto, todavia, no Domingo que passou tive o privilégio de estar presente, juntamente com a minha família, no baptismo do filho de um casal muito nosso amigo. Ambos os membros do casal são, igualmente, padrinhos de baptismo do meu filho e, portanto, o dia só podia assumir, como assumiu, um enorme significado para nós.
Por corresponder ao XXVIII Domingo do Tempo Comum, uma das leituras efectuadas foi a do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos (Marcos 10, 17-30), que reza assim:
"Naquele tempo,
ia Jesus pôr-Se a caminho,
quando um homem se aproximou correndo,
ajoelhou diante d'Ele e Lhe perguntou:
« - Bom Mestre, que hei-de fazer para alcançar a vida eterna?»
Jesus respondeu:
« - Porque me chamas bom? Ninguém é bom senão Deus.
Tu sabes os mandamentos:
'Não mates; não cometas adultério;
não roubes; não levantes falso testemunho;
não cometas fraude; honra pai e mãe'.
O homem disse a Jesus:
« - Mestre, tudo isso eu tenho cumprido desde a juventude».
Jesus olhou para ele com simpatia e respondeu:
« - Falta-te uma coisa: vai vender o que tens,
dá o dinheiro aos pobres, e terás um tesouro no Céu.
Depois, vem e segue-me».
Ouvindo estas palavras, anuviou-se-lhe o semblante
e retirou-se pesaroso,
porque era muito rico (...)."
Confesso que, ao ouvir as palavras do Senhor Padre, num primeiro momento e, seguramente, em função do meu fraco cultivo da leitura das Sagradas Escrituras, fui invadida pelo pensamento de que, face à actual conjuntura económico-financeira e às repercussões que a mesma, generosamente auxiliada pelas sucessivas medidas adoptadas pelo executivo, tem na situação das famílias portuguesas, este "discurso" se revelava, até, um bocadinho aviltante. Não que seja, por princípio, contra o auxílio dos materialmente  mais desfavorecidos, pelo contrário. Ninguém pode, porém, ignorar que a, até aqui, "classe média" portuguesa tem sofrido e (pelos vistos!) continuará a sofrer graves e duríssimos golpes, e está, efectivamente, empobrecida. Desesperantemente empobrecida. Senti-me, portanto, incomodada.
E com este  ingrato sentimento teria abandonado a Igreja onde decorria a celebração, não fora a esclarecida e muito tempestiva explicação do Senhor Padre, que se dirigiu aos fiéis asseverando-lhes que, nesta passagem do Evangelho, se não quis veicular que seguir Jesus é uma opção de miséria, mas, sim, sublinhar a importância de cada um se despojar da sua segurança pessoal (fornecida, em grande medida, pela "riqueza") e de aprender outra forma de ver a vida, os bens materiais, Deus, o outro e a própria religião.
Já faziam, pois, mais algum sentido aquelas palavras. Mas o Senhor Padre continuou o seu sermão e, de forma brilhante, fez a sua transposição para a prática, mais uma vez alertando os fiéis de que, para alcançar a "vida eterna" (que o Prior transpôs para o conceito de "Felicidade"), não basta cumprir, ainda que escrupulosamente, os Mandamentos. Porque essa é a bondade meramente formal - e quantos Homens não conhecemos que os cumprem, mecanicamente, sem que nada de realmente verdadeiro perspasse os seus corações? Sem que sejam o que, no conceito de qualquer homem comum, mediano, possa corresponder a uma boa pessoa?
A bondade que conduz à felicidade é aquela que radica na partilha. No respeito por si mas, também, pelo outro. No não se colocar a si e aos seus interesses, sistematicamente, em primeiro lugar. No importar-se, realmente, com o outro, com os seus sentimentos e as suas necessidades.
E, transpondo o texto das Escrituras para a linguagem do amor ao próximo e do respeito, nós entendemo-nos.
Devo dizer que senti a grata satisfação de, a determinada altura, estarmos ambos a sorrir e de ter o meu olhar preso ao do Senhor Padre. Preso por um fio invisível. O da verdade e do respeito e compreensão mútuos.


 

10.04.2012

Os professores das nossas vidas

"O mundo não nasceu connosco. Essa ligeira ilusão é mais um sinal da imperfeição que nos cobre os sentidos. Chegámos num dia que não recordamos, mas que celebramos anualmente; depois, pouco a pouco, a neblina foi-se desfazendo nos objectos até que, por fim, conseguimos reconhecer-nos ao espelho. Nessa idade, não sabíamos o suficiente para percebermos que não sabíamos nada. Foi então que chegaram os professores. Traziam todo o conhecimento do mundo que nos antecedeu. Lançaram-se na tarefa de nos actualizar com o presente da nossa espécie e da nossa civilização. Essa tarefa, sabemo-lo hoje, é infinita".
Num texto que escreveu para a revista Visão de 13 de Outubro do ano transacto, de que a citação que antecede foi retirada (e cujo texto integral pode ler-se aqui), o escritor José Luís Peixoto expressa a sua opinião sobre os professores, o seu papel na vida de cada um de nós e da comunidade em geral. Marca o trabalho dos professores com o selo da generosidade. E faz-nos apelo ao esforço mínimo da memória e ao sentimento, pequenino, de gratidão, para que nos apercebamos do quanto devemos aos professores. Coloca nas mãos dos professores a bandeira de guardiões da esperança, pela sua prática diária, pela sua resistência. E intima-nos a sentirmos vergonha de verbalizar termos perdido a esperança e de termos desistido de lutar pelo ultrapassar das nossas dificuldades. De termos desistido de viver. "Sabemos que estamos aqui, o sangue atravessa-nos o corpo", escreve.
Sempre tive um respeito imenso pelos professores. Pela sua dedicação ao outro, pela sua persistência e, sim, pela sua resistência. Ensinar é, sem dúvida, tarefa árdua mas será também, estou segura, uma das mais compensadoras que existem. Como salvar vidas. Como devolver a paz e a segurança aos cidadãos através de uma correcta administração da justiça. Todas elas tarefas nobres. E compensadoras, na sua essência, mau grado o quão mal o poder político vem tratando os profissionais que lhes dão o seu corpo e sua alma. E, tantas e tantas vezes, as suas lágrimas, a sua saúde e todo o seu tempo útil.
Nunca esquecerei alguns dos professores que fizeram parte do meu percurso enquanto estudante. Alguns, por (tão) boas razões, outros, por razões assaz absurdas. Estes, porém, pertencem àquela franja marginal dos "professores por obrigação" - não gostaria de afirmá-los "professores por falta de alternativa" -, por contraposição aos professores por vocação, e é, evidentemente, a estes, e apenas a estes, que me refiro neste texto.
Os outros, na verdade, são professores como podiam ser bibliotecários, padeiros, bancários ou agentes imobiliários. Ou outra coisa qualquer, desde que a sua craveira intelectual lho permitisse, obviamente.
Aos dezasseis, e durante dois anos lectivos completos, tive o privilégio de ter sido aluna do professor J.F., que, então, leccionava Língua Portuguesa na escola que eu frequentava. Recordo, com algum assombro, o sentimento que, durante todo um - o primeiro - mês, ele despertava em mim.
Intimidação. Eu sentia-me realmente intimidada pela simples presença dele. Não que o mesmo manifestasse qualquer agressividade, sequer no tom da sua oratória. Era um sentimento que despoletava alguma agonia, mesmo física, em mim, mas que, de forma objectiva e racional, eu não conseguia explicar.
Umas semanas mais tarde, compreendi finalmente. O professor J.F. era um homem de alma grande, enorme. Era um gigante. E os gigantes intimidam-nos sempre pelo seu tamanho, mas não, necessariamente, pela sua personalidade e forma de estar na vida e no mundo. Essa, a deste professor, enlevava-me, fazia-me querer ser sempre melhor, dar mais de mim, mostrar-lhe, de modo grato, que o trabalho dele não era em vão. Que a generosidade do que ele me dava tinha retorno, expresso na minha gratidão e no meu empenho.
Esse, foi o tempo da descoberta do "Clube dos Poetas Mortos", um dos filmes que ficará sempre na minha memória e no meu coração. Da descoberta d' "Os Maias" (não de Eça de Queiroz, que já, então, me acompanhava na vida há dois ou três anos), das "Folhas Caídas", do sonho de um dia publicar, como o professor. Tempos que, nessa medida, recordo com muita saudade.
"Carpe diem. Seize the day, boys! Make your lives extraordinary!"
 
 
 

9.28.2012

Mal nos conhecemos / Inaugurámos a palavra «amigo»!

"Mal nos conhecemos / Inaugurámos a palavra «amigo»!".
Assim se inicia um dos mais citados poemas de Alexandre O'Neill.  Tantas vezes citado, pergunto-me, porém, se, com o passar do tempo, isso o não terá esvaziado de conteúdo. Se o poema será entendido - melhor dizendo, sentido - no seu significado intrínseco, a cada vez que alguém o transcreve para um qualquer suporte.
Não que eu seja céptica relativamente à amizade - não escreverei "à verdadeira amizade", justamente porque o contrário envolve uma contradição nos próprios termos.
Na realidade, no que toca à amizade, sou uma crente, uma "beata fervorosa", acredito no poder da mesma e na influência que pode ter na vida de quem por ela se deixa tocar. Mas, sobre essa influência, discorrerei noutro espaço.
Cícero escreveu que, "dos amores humanos, o menos egoísta, o mais puro e desinteressado é o amor da amizade". Assentindo, acrescentarei que, sem o amor da amizade, o amor romântico é pobre e votado à insubsistência.
Ao longo da minha jornada existencial, muitas vezes me tenho questionado sobre o significado da amizade e sobre o papel que tenho na vida daqueles a quem chamo de "amigos", e vice-versa.
Há alguns dias, o M. dizia-me  "uma pessoa incapaz de fundar qualquer relação inócua". A mais pura das verdades. Relações que nada acrescentam são, para mim, meras interacções, normalmente impostas por circunstâncias pessoais ou profissionais. Não constituem, pois, qualquer alimento para a alma.
Nunca fiz amizades com facilidade. Talvez por ser uma pessoa tímida e reservada. Mantive sempre um núcleo contido de amigos, o qual, no correr da vida e com naturalidade, nalguma parte, se alterou. Tenho amizades que têm quase a minha idade, outras que nasceram recentemente e que ainda dão, embora de forma assertiva, os seus "primeiros passos". Todas muito boas.
Penso poder dizer que me entrego, de coração inteiro, aos meus amigos. Sou uma adepta do incondicional, portanto.
Sucede que, quando nos entregamos, com esta intensidade, àqueles de quem gostamos, é seguro que, mais cedo ou mais tarde, sofreremos graves desilusões. Julgo, até, que aqueles que não se entregam - que nunca se entregam para além do que pode considerar-se a fronteira da sua zona de conforto -, fazem-no conscientemente, como forma de auto-preservação.
Porque dói. Dói intensamente sentir que demos de nós mesmos, que teríamos dado mais se as circunstâncias o tivessem exigido ou proporcionado, e que isso não foi devidamente valorizado, que, pura e simplesmente, foi deitado fora, como se de algo de trivial se tratasse.
Creio que faz parte dos processos internos do ser humano, perante a desilusão, a incompreensão e o sentimento de injustiça que aquela provoca, passar por uma fase de rebelião, na qual nos insurgimos contra nós mesmos, contra a nossa forma de ser e de estar na vida e na relação com o outro.
Humana que sou, já vivi, e de forma vincada, fases de rebelião, nas quais expressei intensa raiva por me entregar demasiado, por pensar nos outros em detrimento de mim mesma, por estar sempre "lá" e por, quando precisei, o inverso não haver - pasme-se! - sucedido.
Percebi, nesses momentos, que não é o facto de não me dar aos outros na perspectiva de deles receber, que evita o sofrimento de realizar que, afinal, a importância que tínhamos, uns para os outros, não merecia equiparação.
E compreendi, também, que, como, recorrentemente, afirma um grande e sábio amigo meu, existem "erros de casting" que não conseguimos evitar, ainda que tenhamos a "mania" de que lemos as pessoas com particular fidedignidade. E que, por vezes, o que temos de melhor para oferecer não corresponde ao que o outro reclama para a sua vida e para a sua felicidade. Ou, pelo menos, àquilo que a sua generosidade e/ou inteligência emocional suporta.
Em profunda fase de rebelião, recebi, há dias, uma mensagem, na qual, entre o mais, podia ler-se, "- Tu és uma pessoa muito especial!". Em abono da verdade, terei de dizer que, momentaneamente, tive a sensação de ter levado um enorme murro no estômago. Não foi a primeira vez que a frase, com essa mesma literalidade, me fora dirigida e isso gerou-me um enorme desconforto, essencialmente por me fazer recordar que, algumas vezes, a mensagem não terá passado de um conjunto ordenado de palavras desprovidas de significação especial para o seu autor.
Depois... Bem, depois esbocei um sorriso, e fi-lo com gratidão, por saber que, pelo menos desta vez, estas palavras vieram do coração de quem as proferiu (muito especial, devo dizer!). E, fazendo o balanço, compreendi que a entrega àqueles que amo continua a ser o caminho. O meu, pelo menos.


9.20.2012

A Estante das Grandes Oportunidades Perdidas

Protagonizava, num destes dias, um breve mas sempre épico episódio de autocomiseração, procurando fazer uma antevisão - fantasiosa, ou não, desconheço!, mas acredito piamente que o seja - do que sucederia se, um dia, com a grata generosidade que me caracteriza, oferecesse o meu livro (porque, nalgum lugar, no tempo e na vida, eu vou escrevê-lo!) a uma determinada pessoa, cuja identidade, naturalmente, irreleva por completo.
Estando empenhada neste meu infrutuoso exercício do "que triste sou por não poder contar-me entre os protagonistas da sua vida", recebo uma sempre bem-vinda bofetada moral da minha ilustre interlocutora, a C..
A C. é uma mulher extremamente inteligente, espirituosa e determinada, pouco dada a visões românticas de filmes de quarta categoria, como ela diz. Teima em "chamar-me à Terra" quando eu entro em espirais de autocrítica imerecida e de sofrimento associado a acontecimentos relativamente aos quais eu não tenho o chamado "domínio do facto".
Afirmava eu que, naquele cenário, o livro seria, apenas, deitado fora. O livro, como o resto, aliás, nada de novo.
A minha interlocutora disse, ipsis verbis: "- Pois eu acho que [...] o arrumava na estante das grandes oportunidades perdidas (se ainda tiver espaço)".
E assim ficámos. Nada mais sobre isso se disse. Nada mais havia, afinal, a dizer.
Se assim é, ou não, desconheço. Nunca saberei. E até pode ser que o livro nunca "saia". Ou que amanhã não estejamos cá para o ler, para o deitar fora, ou para o arrumar em qualquer estante, até na das grandes oportunidades perdidas.
A profundidade das palavras da C. (não sabe dizê-las de outra forma, aquela rapariga!) deixou-me, porém, a pensar.
Não que encarnei ou encarno qualquer oportunidade perdida para quem quer que seja. De todo.
Mas, sim, em que todos nós teremos a nossa estante das oportunidades perdidas. Grandes, médias ou pequenas. Oportunidades de mudança, de crescimento. De preenchimento interior.
Eu tenho a minha, certamente já com algum recheio. Vocês terão a vossa.
Porventura, nunca chegamos a apercebermo-nos, verdadeiramente, do quão preenchida ela vai ficando com o passar dos dias. Ou talvez apenas tomemos consciência disso no momento em que lá tentamos arquivar mais uma oportunidade perdida e verificamos que, ali, já não existe mais espaço.
Nesse dia, porventura, colapsamos por dentro. Ainda que continuemos a fingir muito.
Decidi, entretanto, que não quero perscrutar, nessa minha estante, o que lá jaz. Talvez valesse a pena procurar intuir se existe alguma coisa que ainda de lá pode ser retirada com vida.
Decidi, especialmente, que não quero e que não vou alimentar esta estante cemitério.
Noutra conversa e noutro contexto, dizia-me, ainda, a C., reconduzindo-me, porém, ao mesmo lugar: "- Gosto muito desta ideia: vamos na vida e há um corredor cheio de portas. Se não as abrires, não vais saber o que lá está. Se abrires... haverá dificuldades, mas também coisas boas".
Um brinde, pois, ao abrir de portas.


 

9.08.2012

Da perspectiva

Perspectiva, segundo o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, é a "arte de figurar no desenho as distâncias diversas que separam entre si os objectos".
Colocarmo-nos, a nós e aos outros, em perspectiva é, pois, uma arte. Uma arte do espírito. A cultivar, com dedicação e preserverança.
E porquê?
Porque, na verdade, se não nos colocarmos em perspectiva, jamais conseguiremos apreender qual é o nosso real valor, nas diversas dimensões do ser.
E, não conseguindo fazê-lo, pode suceder uma de duas coisas: ou nos temos por algo que não somos mas que gostaríamos de ser (e, nesse caso, não protagonizaremos mais do que uma farsa mal encenada que, porventura mais cedo do que mais tarde, será alvo de inevitável escrutínio e nos conduzirá ao encerramento das nossas próprias bilheteiras por falta de público - pelo menos, daquele que emprestaria algum relevo à humilde dramatização que é a vida), ou passamos pelos dias em atitude de infrutuosa subestimação, condenando a nossa existência a um sofrimento absolutamente inútil, estéril e, acima de tudo, imerecido.
É costume afirmar-se que "vale mais tarde do que nunca", pelo que, qualquer momento na nossa vida é adequado ao desenvolvimento da nobre tarefa de nos perspectivarmos.
Porém, fazê-lo exige verdade e exige coragem. Para nos confrontarmos connosco, com os nossos medos, com as nossas fraquezas, com os nossos defeitos e falhas, com a nossa forma de estar perante o mundo - o(s) outro(s)! - e a vida. Nem todos o conseguirão, é certo, mas estou certa de que todos deveríamos tentá-lo. Acima de tudo, para o nosso próprio bem, o que, convenhamos, constituirá um razoável incentivo até aos mais egoístas.
Perspectivarmo-nos pode ser, realmente, libertador.
Na verdade, se conduzirmos a nossa vida pela dita farsa mal encenada, ao perspectivarmo-nos, permitimo-nos entrar em cena, eventualmente, a tempo de despedir o mau encenador e de exigir do actor principal (nós mesmos) que estude bem o papel e que o interprete com um mínimo de decência, mas, se possível... magistralmente. Com verdade. Com amor. Podemos impor-lhe que salve a peça, antes que caia o pano sem que esteja lá quem se coloque de pé para aplaudi-lo. Alguém com relevo, entenda-se. Porque existe sempre um publicozinho que jamais fará uma crítica verdadeira à peça que é a nossa vida, todavia, através dele, jamais viveremos realmente. Jamais ascenderemos a um patamar de respeito profundo e de admiração.
Se, por outro lado, vivermos em atitude de absoluta subestimação, perspectivarmo-nos será, seguramente, o primeiro grande passo para uma existência mais consciente, mais edificante, mais feliz, portanto.
Tipicamente, o ser que se subestima sente que não é suficientemente bom e perfeito, que não fez o que dele era esperado (mesmo que tenha feito muito mais do que se lhe podia exigir e muito mais do que a generalidade das pessoas faria em situação similar), e, quando é distratado ou injustiçado, interioriza que não mereceu que os outros tivessem atitude diversa para consigo. O ser que se subestima, por natureza, não aceita ter feito e sido o melhor que podia, muito menos que os outros podem "apenas" ser pessoas cobardes, mal formadas ou qualquer outra coisa menos do que "perfeitas".
Isto, no mínimo, pode ser avassalador. E é, indismentivelmente, muito injusto.
E é por isso que, colocarmo-nos em perspectiva, desenharmo-nos no cenário e dispormos, nele, também, todos aqueles com quem nos relacionamos, é um exercício vital.
Para percebermos quem somos e o lugar que ocupamos e quem os outros são e o lugar que ocupam. Como somos para os outros e como os outros são para nós.
O que lhes damos, o que temos para lhes dar. O que eles nos dão, o que têm para nos dar. De si mesmos, bem entendido.
Exercício tão essencial como surpreendente. E curativo.

8.04.2011

Carta ao meu Filho

Querido Filho, Martim,

Escrever-te esta carta para ser lida por ti dentro de catorze anos foi um dos desafios mais bonitos que o Colégio Pedro Arrupe lançou aos Pais. Muitos outros, prevejo-o, virão.
Começarei por pedir-te desculpa por não fazê-lo "em conjunto" com o Pai. Não se trata, evidentemente, de qualquer individualismo ou necessidade de protagonismo, mas a verdade é que me parece bastante improvável que escrevamos com o coração tudo aquilo que desejamos transmitir-te, se o fizermos de forma não individual.
A segunda das desculpas que quero pedir-te, relaciona-se com o facto de estar a escrever-te num processador de texto, ao invés de manuscrever esta carta. A verdade é que apenas ontem tomei conhecimento deste desafio - na semana que passou estiveste em casa com alguma febre, mas já estás bem! -, pelo que, dada a lentidão com que hoje escrevo "à mão" (ossos do ofício e sinal dos tempos), ser-me-ia impossível terminar esta tarefa em tempo útil.
E, desculpas apresentadas, Filho, quero dizer-te aquilo que me vai na alma e no coração, mas é tanto que, sei-o, não caberá nestas linhas, nem em quaisquer outras que algum dia poderei dirigir-te.
No dia em que tu nasceste - e em que te agarraste à vida de uma forma frugal, nesta altura já deverás ter ouvido falar sobre este assunto -, pura e simplesmente, a minha vida começou.
Começou, sim. Descobri nesse dia que, até então, nada fizera de verdadeiramente excepcional e não encontrara o verdadeiro sentido da minha existência.
Descobri, no mesmo dia, que, por muitas pessoas que reserve no meu coração, nenhuma merecerá - à excepção da Mana, mas esta carta é apenas para ti - o amor incondicional que sinto por ti, Filho.
Por ti, faço todos os sacrifícios que a vida me pedir, porque a tua felicidade e o teu bem-estar estarão sempre à frente de quaisquer necessidades pessoais.
E é isso que eu mais desejo para ti: que venhas a ser um homem honrado, que vivas na verdade, que sejas trabalhador e dedicado, que não tenhas medo de amar e de revelar os teus sentimentos. E, antes do que tudo, que tenhas saúde.
Enfim, que sejas feliz e que sintas que a tua passagem pela vida terrena tem valor e significado, que podes ser tudo o que tu quiseres, com a ajuda de Deus, naturalmente. E dos Pais, embora ao tempo em que leres esta carta possas estar convencido de que os teus Pais não têm razão no que dizem, que são seres ultrapassados e com ideias obsoletas e convicções nada úteis ou, sequer, dignas de qualquer interesse.
Que assim seja, é fruto da juventude e todos passamos por essa fase. Mais ou menos demoradamente.
Mas, ainda assim, desejo com todas as forças do meu coração que, tendo o teu mundo, o mundo dos teus amigos e dos primeiros amores, das tuas ambições pessoais e mais secretos desejos, nunca te afastes de nós, teus Pais, e que saibas sempre que tu tens um porto de abrigo inamovível, seguro, aconteça o que acontecer e por mais grave que algum problema possa parecer-te.
Digo-te desde que nasceste que serás sempre o meu bebé. E tu dizes a toda a gente, enfaticamente, que já és crescido mas que és sempre o bebé da Mãe.
E assim será. Não no sentido de não querer que tu cresças, que tenhas a tua autonomia, o teu espaço, a tua individualidade, mas no sentido de que, em mim, terás sempre os braços e o coração abertos para te receber, para te ajudar naquilo que necessitares, para te ouvir em tudo o que quiseres dizer-me. Mais uma vez, incondicionalmente.
Aos quatro anos e nove meses que hoje tens, dizes também que queres ser "Juiz ou Gestor", por saberes que são as profissões da Mãe e do Pai, respectivamente. É natural, pois, hoje, os Pais são a tua referência.
E é essa referência que desejo que nunca deixemos de ser, no fundo do teu íntimo.
E desejo, também, que possas escolher uma profissão que te preencha. Seja ela qual for - que possa ser a que tu quiseres -, desde que a exerças com dignidade, com sentido de responsabilidade, com o brio próprio daqueles que não querem passar pela vida sem lhe tomar o gosto em todas as suas vertentes.
E desejo que encontres o amor. Afirmas, hoje em dia, que não queres casar, nem ter filhos, porque já associas essas ideias ao perecimento dos teus Pais.
És, sem dúvida, uma das crianças mais doces que conheço.
Mas eu quero, quero muito que encontres alguém com quem partilhar a vida, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza. Que Deus te dê filhos, pois os filhos são, sem dúvida, o melhor que podemos ter na vida.
Tu és a minha primeira grande obra e o tanto ou tão pouco que venha a fazer na vida que me sobra não poderá nunca equiparar-se à grandiosidade que representa o ter-te dado a vida. E, antes disso, o ter-te carregado dentro de mim. O ter acompanhado os teus primeiros passos e ouvido as tuas primeiras palavras.
É, realmente, um privilégio acompanhar-te no teu crescimento diário.
És hoje uma criança sensível, amiga, verdadeira. desejo que venhas a ser um homem sensível, amigo, verdadeiro.
Perguntei-te, há alguns dias, se eras feliz (pedindo-te para dizeres "mesmo a verdade" à Mamã). Fi-lo porque, por vezes, és mais introvertido do que a Mana - lá "saíste", nisso, à Mãe, nem tudo são triunfos. A tua resposta foi afirmativa, expressiva e acompanhada de um grande abraço [um "aiaço", como dizias nos primeiros tempos]. Foi tão gratificante.
É essa convicção sobre a possibilidade de felicidade que eu desejo que mantenhas durante toda a tua vida. É talvez, juntamente com a Fé, o que mais te segurará nos momentos menos bons. E a certeza de que és amado incondicionalmente e de que sempre o serás.
Filho, esta carta já vai longa, e havia tanto, tanto ainda para dizer-te.
E a capacidade de síntese não é uma das minhas qualidades.
Acima de tudo, desejo que, dentro de catorze anos, quando leres estas linhas, sejas um jovem saudável, sereno, seguro de si e com a confiança de que tens a vida toda pela frente e que ela será o espelho daquilo que fores como Homem.
E com a certeza de que, esteja eu, fisicamente, junto de ti, ou não, estarei sempre, mas sempre, a olhar por ti, a abraçar-te e a confortar-te. Ser Mãe é, sem dúvida, o papel que melhor me assenta e aquele, o único, que sei que desempenho bem. Assim espero, pelo menos. Por isso me esforço.
Filho, amo-te mais do que quaisquer palavras possam expressar. Desde sempre e para sempre.
A tua Mãe Amiga.


Odivelas, 21 de Junho de 2011