Protagonizava, num destes dias, um breve mas sempre épico episódio de autocomiseração, procurando fazer uma antevisão - fantasiosa, ou não, desconheço!, mas acredito piamente que o seja - do que sucederia se, um dia, com a grata generosidade que me caracteriza, oferecesse o meu livro (porque, nalgum lugar, no tempo e na vida, eu vou escrevê-lo!) a uma determinada pessoa, cuja identidade, naturalmente, irreleva por completo.
Estando empenhada neste meu infrutuoso exercício do "que triste sou por não poder contar-me entre os protagonistas da sua vida", recebo uma sempre bem-vinda bofetada moral da minha ilustre interlocutora, a C..
A C. é uma mulher extremamente inteligente, espirituosa e determinada, pouco dada a visões românticas de filmes de quarta categoria, como ela diz. Teima em "chamar-me à Terra" quando eu entro em espirais de autocrítica imerecida e de sofrimento associado a acontecimentos relativamente aos quais eu não tenho o chamado "domínio do facto".
Afirmava eu que, naquele cenário, o livro seria, apenas, deitado fora. O livro, como o resto, aliás, nada de novo.
A minha interlocutora disse, ipsis verbis: "- Pois eu acho que [...] o arrumava na estante das grandes oportunidades perdidas (se ainda tiver espaço)".
E assim ficámos. Nada mais sobre isso se disse. Nada mais havia, afinal, a dizer.
Se assim é, ou não, desconheço. Nunca saberei. E até pode ser que o livro nunca "saia". Ou que amanhã não estejamos cá para o ler, para o deitar fora, ou para o arrumar em qualquer estante, até na das grandes oportunidades perdidas.
A profundidade das palavras da C. (não sabe dizê-las de outra forma, aquela rapariga!) deixou-me, porém, a pensar.
Não que encarnei ou encarno qualquer oportunidade perdida para quem quer que seja. De todo.
Mas, sim, em que todos nós teremos a nossa estante das oportunidades perdidas. Grandes, médias ou pequenas. Oportunidades de mudança, de crescimento. De preenchimento interior.
Eu tenho a minha, certamente já com algum recheio. Vocês terão a vossa.
Porventura, nunca chegamos a apercebermo-nos, verdadeiramente, do quão preenchida ela vai ficando com o passar dos dias. Ou talvez apenas tomemos consciência disso no momento em que lá tentamos arquivar mais uma oportunidade perdida e verificamos que, ali, já não existe mais espaço.
Nesse dia, porventura, colapsamos por dentro. Ainda que continuemos a fingir muito.
Decidi, entretanto, que não quero perscrutar, nessa minha estante, o que lá jaz. Talvez valesse a pena procurar intuir se existe alguma coisa que ainda de lá pode ser retirada com vida.
Decidi, especialmente, que não quero e que não vou alimentar esta estante cemitério.
Noutra conversa e noutro contexto, dizia-me, ainda, a C., reconduzindo-me, porém, ao mesmo lugar: "- Gosto muito desta ideia: vamos na vida e há um corredor cheio de portas. Se não as abrires, não vais saber o que lá está. Se abrires... haverá dificuldades, mas também coisas boas".
Um brinde, pois, ao abrir de portas.
Estando empenhada neste meu infrutuoso exercício do "que triste sou por não poder contar-me entre os protagonistas da sua vida", recebo uma sempre bem-vinda bofetada moral da minha ilustre interlocutora, a C..
A C. é uma mulher extremamente inteligente, espirituosa e determinada, pouco dada a visões românticas de filmes de quarta categoria, como ela diz. Teima em "chamar-me à Terra" quando eu entro em espirais de autocrítica imerecida e de sofrimento associado a acontecimentos relativamente aos quais eu não tenho o chamado "domínio do facto".
Afirmava eu que, naquele cenário, o livro seria, apenas, deitado fora. O livro, como o resto, aliás, nada de novo.
A minha interlocutora disse, ipsis verbis: "- Pois eu acho que [...] o arrumava na estante das grandes oportunidades perdidas (se ainda tiver espaço)".
E assim ficámos. Nada mais sobre isso se disse. Nada mais havia, afinal, a dizer.
Se assim é, ou não, desconheço. Nunca saberei. E até pode ser que o livro nunca "saia". Ou que amanhã não estejamos cá para o ler, para o deitar fora, ou para o arrumar em qualquer estante, até na das grandes oportunidades perdidas.
A profundidade das palavras da C. (não sabe dizê-las de outra forma, aquela rapariga!) deixou-me, porém, a pensar.
Não que encarnei ou encarno qualquer oportunidade perdida para quem quer que seja. De todo.
Mas, sim, em que todos nós teremos a nossa estante das oportunidades perdidas. Grandes, médias ou pequenas. Oportunidades de mudança, de crescimento. De preenchimento interior.
Eu tenho a minha, certamente já com algum recheio. Vocês terão a vossa.
Porventura, nunca chegamos a apercebermo-nos, verdadeiramente, do quão preenchida ela vai ficando com o passar dos dias. Ou talvez apenas tomemos consciência disso no momento em que lá tentamos arquivar mais uma oportunidade perdida e verificamos que, ali, já não existe mais espaço.
Nesse dia, porventura, colapsamos por dentro. Ainda que continuemos a fingir muito.
Decidi, entretanto, que não quero perscrutar, nessa minha estante, o que lá jaz. Talvez valesse a pena procurar intuir se existe alguma coisa que ainda de lá pode ser retirada com vida.
Decidi, especialmente, que não quero e que não vou alimentar esta estante cemitério.
Noutra conversa e noutro contexto, dizia-me, ainda, a C., reconduzindo-me, porém, ao mesmo lugar: "- Gosto muito desta ideia: vamos na vida e há um corredor cheio de portas. Se não as abrires, não vais saber o que lá está. Se abrires... haverá dificuldades, mas também coisas boas".
Um brinde, pois, ao abrir de portas.
